quinta-feira, 8 de março de 2012

Driblar a câmera, não é uma questão somente do crack.


                                                                                                 Ubiracy de Souza Braga*
                              Tudo o que se pensa ou é afeto ou aversão” (Robert Musil).
                Conceptualmente droga “é toda e qualquer substância, natural ou sintética que, introduzida no organismo modifica suas funções”. As drogas naturais são obtidas através de determinadas plantas, de animais e de alguns minerais. Exemplo a cafeína (do café), a nicotina (presente no tabaco), o ópio (na papoula) e o THC - tetrahidrocanabiol (da cannabis). As drogas sintéticas são fabricadas em laboratório, exigindo para isso técnicas especiais. O termo “droga” presta-se a várias interpretações e conteúdos de sentido, mas para o senso comum é uma substância proibida, de uso ilegal e nocivo ao indivíduo, modificando-lhe as funções, as sensações, o humor e o comportamento. As drogas estão classificadas em três categorias: a) as estimulantes, b) os depressores e, c) os “perturbadores das atividades mentais”.
O termo “droga” envolve os analgésicos, estimulantes, alucinógenos, tranquilizantes e barbitúricos, além do álcool e substâncias voláteis. As psicotrópicas são as drogas que tem tropismo e afetam o Sistema Nervoso Central, modificando as atividades psíquicas e o comportamento. Essas drogas podem ser absorvidas de várias formas: por injeção, por inalação, via oral, injeção intravenosa ou aplicada via retal (supositório). O crack é uma droga, geralmente fumada, “feita a partir da mistura de pasta de cocaína com bicarbonato de sódio”. É uma forma “impura de cocaína” e não um subproduto. O nome deriva do verbo “to crack”, que, em inglês, significa “quebrar”, devido aos pequenos estalidos produzidos pelos cristais (“as pedras”) ao serem queimados, como “se quebrassem”. E “cracolândia”, por derivação do crack, “é uma denominação popular” para uma região no centro da cidade de São Paulo, nas imediações avenidas Duque de Caxias, Ipiranga, Rio Branco, Cásper Líbero e à rua Mauá, onde “historicamente se desenvolveu intenso tráfico de drogas e meretrício”. Durante o final da década de 1960, com o surgimento do chamado “cinema marginal”, houve um crescente desenvolvimento da atividade cinematográfica nesta região da cidade.
Etnograficamente falando diversas produtoras e alguns cinemas lá surgiram nesta época. A Boca do Lixo pode ser considerada “o berço do Cinema Marginal”, de diretores como Rogério Sganzerla, que teve como expoente de sua carreira o filme “O Bandido da Luz Vermelha”, de 1968. O diretor, criticado por sua ousadia, concentra em seu primeiro longa-metragem toda a sua radicalidade política. Sganzerla se pretendia “ser livre - e ao mesmo tempo - acadêmico”, o que rendeu certa complexidade artística e intelectual à sua obra. Ozualdo Candeias, de origem pobre, foi militar e caminhoneiro antes de começar sua carreira cinematográfica em 1955, com o curta-metragem Tambau-Cidade dos Milagres, no qual já trazia elementos comuns à sua obra, como a ironia e a provocação.
Sua obra-prima foi A Margem, de 1967, que abriu caminho para o movimento do “cinema marginal”, de nomes como o do próprio Ozualdo, João Silvério Trevisan, Júlio Bressane e Rogério Sganzerla, Andrea Tonacci, entre outros. Em 1968, produziu um dos segmentos do filme Trilogia de Terror, de José Mojica Marins, o Zé do Caixão: O Acordo. Ainda com Mojica, co-dirigu Ritual dos Sádicos, produzido em 1969, mas só liberado pela censura militar em 1982 e Júlio Bressane, um digno representante do cinema marginal brasileiro, que teve coo primícias o fazimento e aprendizado do  cinema como assistente de direção do laureado cineasta Walter Lima Júnior, em que dirigiu Menino de engenho. Em 1967 estreou como diretor com “Cara a Cara”, sendo selecionado para o Festival de Brasília. Em 1970 fundou a Belair Filmes em sociedade com o também cineasta Rogério Sganzerla.
Num depoimento de Caetano Veloso sobre o chamado “cinema novo” temos a seguinte reflexão:
O filme como um todo, no entanto, me pareceu desigual. E me agastava que ele não o fosse menos - era- o mesmo bem mais - do que Deus e o Diabo na Terra do Sol. As lamentações do seu principal personagem - um poeta de esquerda em conflito íntimo por ambicionar, muito além da justiça social, ´o absoluto` - por vezes me soavam francamente subliterárias. Além disso, certos defeitos intoleráveis do cinema brasileiro - as festas grã-finas inconvincentemente encenadas, as figurantes mulheres que são incentivadas pelos diretores a fazer uma deplorável caricatura provinciana de glamour sexual, a incapacidade de contar pelo menos um trecho de história com clareza, mesmo quando a evidente intenção seria essa etc. etc. - continuavam todos lá. Mas, como já tinha sido ocaso com os dois filmes anteriores de Glauber (e, ainda que em menor intensidade, com grande número de produções do Cinema Novo),incessantemente explodiam na tela as sugestões de uma outra visão da vida, do Brasil e do cinema que pareciam obsoletar esse tipo de exigência. E no caso de Terra em transe, o próprio poeta protagonista trazia, envolta em sua retórica, uma visão amarga e realista da política, que contrastava flagrantemente com a ingenuidade de seus companheiros de resistência à ditadura militar recém-instaurada (o filme é o momento do golpe de Estado reconstituído como um pesadelo pela mente do poeta ao morrer)”.
Eles optaram por um modelo de realizar filmes de baixo custo e produção e com isso conseguiram rodar seis longas-metragens em apenas seis meses. Ele chegou a se exilar em Londres, no início dos anos 1970, mas voltou ao Brasil alguns anos depois e fez “um filme atrás do outro”, usando a chanchada e o deboche como suas principais características. Seu penúltimo filme, “Cleópatra”, foi apresentado no Festival de Cinema de Veneza de 2007, “fora da competição”, além de ter sido premiado como melhor filme do 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em novembro de 2007. Os filmes ditos marginais, ligados à Boca, eram sempre permeados de muita sexualidade, escracho e esbórnia. Durante a década de 1980, essa produção intensificou o teor sexual e entrou no período que ficou conhecido como a fase da “pornochanchada”. A Boca foi responsável por mais de 700 títulos nesta época. Desde 2005, a prefeitura fechou bares e hotéis ligados ao tráfico de drogas e à prostituição, retirou moradores de rua e aumentou o policiamento para inibir o consumo de drogas no local.
Centenas de imóveis foram declarados de utilidade pública, em uma área de 105 mil metros quadrados, e estão sendo desapropriados. O objetivo do programa é tornar a área atrativa a investimentos privados, abrindo espaços para empresas do setor imobiliário. Em 2007, a Prefeitura de São Paulo lançou um programa denominado “Nova Luz” para promover a reconfiguração e requalificação da área. Entre as medidas propostas, destaca-se a renúncia fiscal referente ao IPTU, visando estimular a reformas de fachadas dos imóveis de valor venal inferior a R$ 300 mil.
Críticos do programa, no entanto, assinalam o seu “caráter higienista”, destacando que a recuperação de edifícios, praças, parques e avenidas não são acompanhadas de ações voltadas aos grupos mais vulneráveis que vivem ou trabalham na área - que estão sendo sumariamente expulsos. O discurso higienista (cf. Reis, 2000), iniciado no final do Segundo Reinado, firmou-se ao longo da Primeira República. Especialmente durante as décadas de 1920 e 1930, a psiquiatria preventiva, que acoplou os princípios de uma “nova ciência” denominada “eugenia” aos seus ideais regeneradores, ganhou ainda maior impulso. Tratava-se de um projeto político autoritário de evolução racial da nação. O eugenismo, uma espécie de prática avançada do darwinismo social, incentivou a administração científica e racional da hereditariedade, por meio de novas políticas sociais interventivas que incluíam, sobretudo, uma deliberada seleção social.
Ipso facto o olhar médico “dividia a população em doentes e sãos, em regeneráveis e não regeneráveis, tratados de formas distintas”. A boa recepção da eugenia nos meios psiquiátricos deveu-se à convicção de médicos e sanitaristas de que a proporção das doenças mentais era mais alta entre as “estirpes inferiores” e de que, concomitantemente, o número de nascimentos entre as “camadas superiores” estava em franco declínio. O caminho para o “abastardamento mental da espécie humana” estava, segundo os psiquiatras, traçado e só poderia ser interrompido pelas ações higienistas e eugênicas a serem aplicadas em todo o corpo social. A partir de tais práticas, seria possível prever, inclusive, o nascimento de um novo tipo de homem, sadio, vigoroso, acima de qualquer tara ou degenerescência. Se o “paraíso bíblico o homem destruiu” com “a eugenia o homem criará o paraíso terrestre”, é o que prometia Riedel repetindo a fórmula de Renato Kehl, papa do eugenismo brasileiro do período (cf. Reis, 2000).
Nestes dias os “sem-teto” são retirados, o trabalho dos catadores de material reciclável é dificultado e os usuários e dependentes de crack (muitos dos quais crianças e adolescentes), impedidos de se reunir no local, são obrigados a perambular pelos bairros vizinhos, em bandos, sem rumo. A imprensa também tem mostrado as dificuldades sofridas por parentes de viciados em crack para tratá-los. Casos extremos, de famílias que não conseguem ajuda no sistema publico de saúde, são cada vez mais comuns. Em 3 de janeiro de 2012 iniciou-se uma operação de combate ao tráfico da região e ajuda aos usuários de crack, chamada de “Operação Centro Legal”. No final do mês, segundo a PM, a Cracolândia havia se espalhado por 27 bairros, como: Barra Funda, nos trilhos da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, Higienópolis, Luz, Campos Elíseos, Santa Cecília e nas proximidades do Elevado Costa e Silva, essas regiões foram chamadas pela mídia de “minicracolândias”. Segundo relatório divulgado no dia 27 de janeiro pelo governo de São Paulo desde o começo da operação 155 usuários foram encaminhados à instituições de recuperação (internações), 191 pessoas foram presas em flagrante, sendo apreendidas aproximadamente 63 toneladas de drogas, sendo 3 de crack.
                              Foto: Eduardo Zidin: “Cracolândia: Ensaio sobre a barbárie” (2012).
                Há décadas, as ruas Vitória e Guaianases, localizadas no centro velho de São Paulo, foram tomadas por traficantes e dependentes de drogas. Formam as duas um pedaço da “Cracolândia” que a administração Kassab insiste em declarar extinta, mas que ressurge a cada noite como uma Fênix incandescente a ofuscar o marketing kassabserrista do Projeto “Nova Luz”. Moradores do local sabem mais do que ninguém o preço desse empurra-empurra entre sombra e luz. São eles que vivenciam diariamente a experiência de uma frente de guerra incrustrada, como tantas outras, na noite de uma cidade que supostamente dorme em paz. São eles também que se arrastam na peregrinação inútil para sensibilizar autoridades insensíveis, em busca de um armistício feito de segurança, assistência social e urbanismo, que lhes devolva algum traço de cidadania noturna.
            Como sobreviventes de uma espécie de “Faixa de Gaza” (cf. Braga, 2006) esquecida pelo noticiário, os “moradores” das ruas Vitória e Guaianases já percorreram todas as etapas do mesmo fracasso que angustia cidadãos asfixiados por conflitos anônimos em algum ponto do fim do mundo: o apelo humanitário do abaixo-assinado; a denúncia e o pedido de socorro ao Ministério Público e a representação junto ao Conselho de Segurança do Centro, ironicamente autobatizado com seu antônimo: “Conseg”... Não, não se consegue. Representantes da prefeitura e da Polícia Militar chegam a zombar de cidadãos crédulos que os procuram:  - “Olha, não queria estar na pele de vocês”; ou então, “é assim mesmo; há 30 anos é assim; vocês vão esperar mais 15 ...”. Uma realidade complexa como essa, a realidade de uma guerra antiga e surda nas entranhas de uma das maiores metrópole do planeta, pediria abordagens jornalísticas abrangentes, corajosas, competentes. Não, não há uma disponível. O enfoque da mídia segue a receita de repisar o drama do crack, com um toque de banalização que inocula a droga do fatalismo na opinião pública.
            Ou seja,
A pauta fatalista inclui a versão requentada pela Globo, cujo foco de quando em vez recai na relação promiscua e violenta entre policiais e usuários. Ato contínuo, a Polícia surge tinindo na Cracolândia como se fosse uma novidade existir ali um parque temático do que há de mais sórdido na aliança entre o capitalismo, a pobreza e a corrupção. A operação higienista, tão fascista quanto inutilmente publicitária, revela o ´torque social` da administração que comanda a cidade há duas gestões seguidas. Nada de novo. A emissora é a mesma, os personagens também, inclusive o teórico nativo do ´higienismo social` que orienta as ações oficiais na área, Andrea Matarazzo, braço-direito do kassabserrismo e introdutor das ´encostas anti-mendigos` nos baixos dos viadutos paulistas. A imprensa cobre a festa em sua homenagem e o faz com indisfarçável isenção, como manda o manual de redação” (cf. Zidin, 2012).
 
                             Foto: Eduardo Zidin: “Cracolândia: Ensaio sobre a barbárie”.
                A folha de coca, como o café, chá e tabaco foram levados para a Europa durante o século XVI, mas ao contrário das outras folhas, a coca não era muito popular. Isso mudou durante o século XIX quando três químicos, respectivamente os alemães Albert Neimann e Friedrich Gaedecke e o italiano Paolo Manteguzza “encontraram uma maneira de extrair a cocaína das folhas de coca”. A cocaína paradoxalmente foi vista com tanta estima como curiosidade, durante as décadas de 1880 e 1890 que homens importantes como: a) o Papa Leão XII, que na sua política externa procedeu às negociações de diversas concordatas, vantajosas para o papado; b) Sigmund Freud, com a revelação do inconsciente, [o que não acede ao pensamento] e que, portanto “não detemos o centro de nossa individualidade”; c) Jules Verne numa época de expansão, exploração e conquista europeia do globo terráqueo, mas também da ideia de progresso científico e tecnológico como conheceu a segunda metade do século XIX.
            Mesmo no universo imaginário individual e coletivo que as enformam, constituem toda uma odisseia geográfica sem excluir qualquer continente, dos polos Norte a Sul, do Ocidente ao Oriente, sem esquecer as profundezas, os mares ou o espaço aéreo cruzado por homens e máquinas, ou ainda last but not least, d) Thomas Edison (1847-1931), conhecido como The Wizard of Menlo Park, que fora um dos primeiros inventores a aplicar os princípios da “produção em massa” ao processo de “invenção científica”. Ele, como Freud ou Verne foi, igualmente, daqueles que aprovaram “as possíveis maravilhas da nova droga”: a cocaína. Durante a década de 1890, a Coca-Cola, que originalmente continha cocaína, ganhou sua fama business ao ser declarado “um tônico terapêutico para nervos fracos e cérebros vagarosos” (sic) e tinha como slogan: “a bebida que alivia exaustão”!
            Para o ex-presidente da República Federativa do Brasil, Fernando Henrique Cardoso,
uma política realmente efetiva de controle do crime e da droga começa pela educação. Educação e saúde. E implica também o envolvimento das famílias. Isso não é assunto que o Estado possa resolver sozinho. Implica, digamos, a ´despreconceitualização` do tema, porque até hoje ele não é discutível em família. Trazê-lo à tona é considerado uma vergonha. Implica repressão de uma maneira mais eficaz. Implica reforma da Justiça e da polícia. Acho que a questão das polícias, a  questão da segurança pública, é central. Tenho a sensação de que, assim como temos um tremendo problema de saúde pública, de gestão da saúde pública, de instituições da saúde pública, de articulação dos vários níveis de governo – União, estados e municípios – e dos setores privado e público em torno da saúde, temos um problema semelhante de segurança pública. Não estamos institucionalmente preparados para discutir segurança pública no mundo de hoje. A reação mais torpe e mais imediata é o esquadrão da morte, em que se criminaliza a segurança, muitas vezes como apoio da sociedade. Vai-se então da impunidade, que é o mais frequente , à criminalização da própria segurança. Acho que a crise das polícias militares, embora provocadas por outras razões – salários, hierarquias, falta de treinamento -, teve a virtude de colocar a questão na mesa” (cf. Toledo, 1998: 145).         
A história social do crack está diretamente relacionada com a da cocaína, droga que surgiu nos anos 1960 e que, na época, era grandemente consumida por grupos de amigos, em um contexto recreativo. No entanto, a cocaína era uma droga cara, apelidada de “a droga dos ricos”. Esse foi o principal motivo para a criação de uma “cocaína” mais acessível. De fato, a partir da década de 1970 começaram a misturar a cocaína com outros produtos e conforme outros métodos. Foi assim que surgiu o crack, “obtido por meio do aquecimento de uma mistura de cocaína, água e bicarbonato de sódio”. Na década de 1980, o crack se tornou grandemente popular, principalmente entre as camadas mais pobres dos Estados Unidos.
            O crack é uma substância que afeta a química do cérebro do usuário: causando euforia, alegria, suprema confiança, perda de apetite, insônia, aumento da energia, um desejo por mais crack, e paranoia potencial (que termina após o uso). O seu efeito inicial é liberar uma grande quantidade de dopamina, uma química natural do cérebro que causa sentimentos de euforia e de prazer. O efeito geralmente dura de 5-10 minutos, após o qual os níveis de tempo de dopamina no cérebro despencam, deixando o usuário se sentindo deprimido. Quando o crack é dissolvido e injetado, a absorção pela corrente sanguínea é tão rápido como a absorção que ocorre quando o crack é fumado, e “sentimentos de euforia pode ser experimentado”.
Uma resposta típica entre os usuários é ter outro hit da droga, no entanto, os níveis de dopamina no cérebro levam muito tempo para se restabelecer, e cada dose recebida em rápida sucessão leva a efeitos cada vez menos intensos. No entanto, uma pessoa pode ficar 3 ou mais dias sem dormir, enquanto sob o efeito do crack. Uso do crack em uma festa, durante o qual a droga é tomada repetidamente e em doses cada vez mais elevadas, leva a um estado de irritabilidade crescente, agitação e paranoia. Isso pode resultar em uma psicose paranoica, em que o indivíduo perde o contato com a realidade e passa a ter alucinações.
Abuso de estimulantes de drogas, principalmente anfetaminas e cocaína, podem levar a parasitose delirante, melhor dizendo, Síndrome aka Ekbom: a crença equivocada de que são infestados de parasitas. Por exemplo, o uso de cocaína em excesso pode levar à formigamento, apelidado de “bugs cocaína” ou “erros de coque”, onde as pessoas afetadas acreditam ter, ou sentir, parasitas rastejando sob a pele. Essas ilusões também estão associados com febre alta ou abstinência do álcool, muitas vezes juntamente com alucinações visuais sobre insetos. Pessoas que vivem essas alucinações podem arranhar-se e causar danos cutâneos graves e sangramento, especialmente quando eles estão delirando.
O uso do crack - e sua potente dependência psíquica - frequentemente leva o usuário que não tem capacidade monetária para bancar o custo do vício à prática de delitos para obter a droga. Os pequenos furtos de dinheiro e de objetos, sobretudo eletrodomésticos, muitas vezes começam em casa. Muitos dependentes acabam vendendo tudo o que têm a disposição, ficando somente com a roupa do corpo. Em alguns casos, podem se prostituir para sustentar o vício. O dependente dificilmente consegue manter uma rotina de trabalho ou de estudos e passa a viver basicamente em busca da droga, não medindo esforços para consegui-la.
Tais sintomas foram mostrados pelo programa Profissão Repórter, que foi “ao ar” pela TV Globo, no dia 16/11/2010. O crack pode causar doenças reumáticas, podendo levar o indivíduo a morte. Embora seja uma droga mais barata que a cocaína, o uso do crack acaba sendo mais dispendioso: o efeito da pedra de crack é mais intenso, mas passa mais depressa, o que leva ao uso compulsivo de várias pedras por dia. O pesquisador Luis Flávio Sapori, do Instituto Minas pela Paz, que realizou a mais aprofundada pesquisa sobre o assunto, financiada pelo CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico aponta que “o crack é sem dúvida um fator de risco para a violência urbana”. Segundo Sapori não há uma política nacional de saúde pública para acolher o dependente químico que queira se tratar. Ao mesmo tempo não há mecanismos para aqueles que necessitariam de uma internação involuntária.
Poucas cidades brasileiras possuem o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e drogas (CAPSAD). Essa modalidade de CAPS possui atendimento ambulatorial e hospital-dia com equipes interdisciplinares cuja função é criar uma rede de atenção aos usuários de álcool e outras drogas. A recuperação não é impossível, mas depende de muitos fatores, como o apoio familiar, da comunidade e a persistência da pessoa (vontade de mudar). Além disso, quanto antes procurada a ajuda, mais provável o sucesso no tratamento. Segundo o médico psiquiatra Marcelo Ribeiro de Araújo, “faz-se necessário a constituição de equipe interdisciplinar experiente e capacitada, capaz de lhes oferecer um atendimento intensivo e adequado às particularidades de cada um deles, contemplando suas reais necessidades de cuidados médicos gerais, de apoio psicológico e familiar, bem como de reinserção social”. Seis vezes mais potente que a cocaína, “o crack tem ação devastadora provocando lesões cerebrais irreversíveis e aumentando os riscos de um derrame cerebral ou de um infarto”.
As “pedras” começaram a ser usadas no ano de 1990 na periferia de São Paulo e, segundo se diz, de início as próprias quadrilhas de traficantes do Rio de Janeiro não permitiam a sua entrada, pois os bandidos temiam que o crack destruísse rapidamente sua fonte de renda: os consumidores. Entretanto, em menos de dois anos a droga alastrou-se por todo o Brasil. Recentes reportagens demonstram que o entorpecente “tornou-se o mais comercializado nas favelas cariocas multiplicando os lucros dos traficantes”. Atualmente, pode-se dizer que há uma verdadeira “epidemia” de consumo do crack no País, atingindo cidades grandes, médias e pequenas. Efetivamente, é o que aponta recente pesquisa da Confederação Nacional de Municípios, amplamente divulgada, segundo a qual o crack é consumido em 98% das cidades brasileiras.
 Alguns consumidores, em especial do sexo feminino, na prostituição de baixo nível, visando somar recursos para manter o próprio vício, utilizam-se da introdução de pequenas porções de crack em cigarros de maconha, no que é chamado de “desirée”, “mesclado”, “craconha” ou “criptonita”, na gíria do meio consumidor e traficante de crack. Esta prática também é utilizada por traficantes, que adicionam uma pequena quantidade de crack à maconha e vendem aos usuários, sem que estes saibam. É uma tática cruel para obter novos viciados. Enfim, embora gere menos renda para o traficante por peso de cocaína produzida, o crack, sendo mais viciante, garante um mercado cativo de consumo. A pressão sobre o tráfico de cocaína (de menor volume e maior valor agregado) para os países ricos tem deslocado o tráfico para o mercado de crack, passível de ser facilmente colocado para populações de baixa renda.

* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).


Bibliografia geral consultada:
REIS, J. R. F., “Raça, nação e psiquiatria: o projeto eugênico da Liga Brasileira de Higiene”. In: AMARANTE, P. (Org.), A loucura da história. Rio de Janeiro: LAPS/ENSP/FIOCRUZ, 2000; pp. 130-151; Artigo: “98% das cidades brasileiras têm problemas ligados ao crack”. In: Estadão, 13 de dezembro de 2010; ZIDIN, Eduardo, “Cracolândia: Ensaio sobre a barbárie”. Disponível em: www.cartamaior.com.br, 8 de março de 2012; PECHANSKY, Flavio “et al”, “Usuárias brasileiras de crack apresentam níveis séricos elevados de alumínio”. In: Rev. Bras. Psiquiatr. Vol. 29 no.1 São Paulo Mar. 2007; GABEIRA, Fernando, A Maconha. São Paulo: Publifolha, 2008; ROBINSON, Rowan, O Grande Livro da Cannabis. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1999; ARBEX JR., José, Showrnalismo - a notícia como espetáculo. São Paulo: Casa  Amarela, 2001; CRUZ, Ricardo Franca, “As Pontes de Fernando”. In: Revista Rolling Stone Brasil, nº 20, maio de 2008; MAGALHÃES, Mario, O Narcotráfico. São Paulo: Publifolha, 2008; BOURDIEU, Pierre, Esquisse d`une théorie de la pratique. Genebra: Droz, 1972; TOLEDO, Roberto Pompeu de, O presidente segundo o sociólogo: Entrevista de Fernando Henrique Cardoso a Roberto Pompeu de Toledo. São Paulo: Companhia as Letras, 1998; CARDOSO, Fernando Henrique, GAVIRIA, César; ZEDILLO, Ernesto, “Hora de Legalizar? Por que um grupo cada vez maior de políticos - entre eles o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso - defende a legalização do consumo pessoal de maconha”. In: Revista Época. 16 de fevereiro de 2009; CASTAÑEDA, Carlos, L` herbe du diable et la petite fumée. Paris: Plon, 1972a; Idem, Viagem a Ixtlán. São Paulo: Círculo do Livro, 1972b; FREUD, Sigmund, Obras Completas. Madrid: Editorial Biblioteca Neuva, 1972, 3 Volumes; BRAGA, Ubiracy de Souza, “A Questão Israelense-Palestina: histórias míticas?”. In: Jornal O Povo. Fortaleza, Ce, 7.10.2006; MISSE, Michel, “Le movimento. Les rapports complexes entre trafic, Police et favelas à Rio de Janeiro”. In: Déviance et Société, v. 32, 2008; ROSA, Alexandre Machado, “Mil vezes favela”. In: Boletim Le Monde Diplomatique, 29.06.2008; VATTIMO, Gianni, A Sociedade Transparente. Lisboa: Relógio d` água, 1992, entre outros.  

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terça-feira, 6 de março de 2012

Há 50 Anos o Mundo (en) Canta “Garota de Ipanema”.


                                                          
                                                                                               Ubiracy de Souza Braga*
Tall and tan and young and lovely/The girl from Ipanema goes walking/And when she passes, each one she passes goes ´a-a-ah!`”.
A música “Garota de Ipanema” (“The girl from Ipanema”) faz 50 anos. É uma das mais conhecidas canções da Bossa Nova e MPB - Música Popular Brasileira do mundo e foi composta em 1962 por Vinícius de Moraes e Antônio Carlos Jobim quando “viram a jovem Heloísa Eneida, com apenas 17 anos, andando distraída de biquíni pelas areias quentes da Praia de Ipanema”. António Carlos Brasileiro de Almeida Jobim nasceu no Rio de Janeiro, a 25 de Janeiro de 1927 e faleceu em Nova Iorque aos 67 anos. Tom Jobim foi compositor, maestro, pianista, cantor e violinista. É considerado “um dos maiores expoentes da música brasileira” e um dos criadores da Bossa Nova. A 21 de novembro de 1962, Tom Jobim foi um dos destaques do Festival de Bossa Nova do Carnegie Hall, em Nova Iorque. Gravou discos nos Estados Unidos e fundou a sua própria Editora, a Corcovado Music. Em 1967 gravou com Frank Sinatra. Vinícius de Moraes nasceu a 19 de Outubro de 1913, no Rio de Janeiro, e faleceu a 9 de Julho de 1980. Foi um poeta, compositor, diplomata e jornalista brasileiro. Abaixo o site oficial da marca “Garota de Ipanema”.
                                             http://www.garotadeipanemabrasil.com.br/garotadeipanemabrasil/

A “Bossa Nova” é considerada um subgênero musical derivado do samba e com forte influência do jazz estadunidense, surgido no final da década de 1950 no Rio de Janeiro. De início, o termo era apenas relativo a um novo modo de cantar e tocar samba naquela época, ou seja, a uma reformulação estética dentro do moderno samba carioca urbano. Com o passar dos anos, a Bossa Nova tornar-se-ia um dos movimentos mais influentes da história da música popular brasileira, conhecido em todo o mundo e, especialmente, associado a João Gilberto, Nara Leão, Vinicius de Moraes, Antônio Carlos Jobim, Baden Powell e Luiz Bonfá.
A palavra “bossa” apareceu pela primeira vez na década de 1930, em “Coisas Novas”, samba do popular cantor Noel Rosa: O samba, a prontidão/e outras bossas,/são nossas coisas (...). A expressão bossa nova passou a ser utilizado também na década seguinte para aqueles “sambas de breque”, baseado no talento de improvisar paradas súbitas durante a música para encaixar falas. Alguns críticos musicais destacam certa influência que a cultura americana do Pós-Guerra, de músicos como Stan Kenton, combinada ao impressionismo erudito, de Debussy e Ravel, teve na bossa nova, especialmente do cool jazz e bebop. Embora tenha pouca influência de música estrangeira como o Jazz, a Bossa Nova possui elementos de samba sincopado. Além disso, havia um fundamental inconformismo com o formato musical de época. Os cantores Dick Farney e Lúcio Alves, que fizeram sucesso nos anos da década de 1950 com um jeito suave e minimalista (em oposição a cantores de grande potência sonora) também são considerados influências positivas sobre os garotos que fizeram a Bossa Nova.
Um embrião do movimento, já na década de 1950, eram as reuniões casuais, frutos de encontros de um grupo de músicos da classe média carioca em apartamentos da zona sul, como o de Nara Leão, na Avenida Atlântica, em Copacabana. Nestes encontros, cada vez mais frequentes, a partir de 1957, um grupo se reunia para fazer e ouvir música. Dentre os participantes estavam novos compositores da música brasileira, como Billy Blanco, Carlos Lyra, Roberto Menescal e Sérgio Ricardo, entre outros. O grupo foi aumentando, abraçando também Chico Feitosa, João Gilberto, Luiz Carlos Vinhas, Ronaldo Bôscoli, entre outros.
Em 1959, era lançado o primeiro LP de João Gilberto, “Chega de saudade”, contendo a faixa-título - canção com cerca de 100 regravações feitas por artistas brasileiros e estrangeiros. A partir dali, a bossa nova se tornara uma realidade. Além de João Gilber  to, parte do repertório clássico do movimento deve-se as parcerias de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Consta-se, segundo muitos afirmam, que o espírito bossa-novista já se encontrava na música que Jobim e Moraes fizeram, em 1956, para a peça “Orfeu da Conceição”, primeira parceria da dupla, que esteve perto de não acontecer, uma vez que Vinícius primeiro entrou em contato com Vadico, o famoso parceiro de Noel Rosa e ex-membro do Bando da Lua, para fazer a trilha sonora. É dessa peça, baseada na tragédia Grega Orfeu, uma das belas composições de Tom e Vinícius, “Se todos fossem iguais a você”, já prenunciando os elementos melódicos da Bossa Nova.
 Além de “Chega de saudade”, os dois compuseram “Garota de Ipanema”, outra representativa canção da bossa nova, que se tornou a canção brasileira mais conhecida em todo o mundo, depois de “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso), com mais de 169 gravações, entre as quais de Sarah Vaughan, Stan Getz, Frank Sinatra (com Tom Jobim), Ella Fitzgerald entre outros. É de Tom Jobim também, junto com Newton Mendonça, as canções “Desafinado” e “Samba de uma Nota Só”, dois dos primeiros clássicos do novo gênero musical brasileiro a serem gravados no mercado norte-americano a partir de 1960.
 Vinicius de Moraes estudou cinema com Orson Welles e Gregg Toland e lançou, com Alex Viany, a revista Film, em 1947. Em 2001, a indústria de perfumes Avon lança a “Coleção Mulher e Poesia - por Vinicius de Moraes”, com as fragrâncias “Onde anda você”, “Coisa mais linda”, “Morena flor” e “Soneto de fidelidade”. O “poetinha”, como ficou conhecido singularmente, casou-se nove vezes ao longo de sua vida. Não foi esquecido mesmo depois da sua morte, em 1980. No dia 8 de setembro de 2006, foi homenageado pelo governo brasileiro com a reintegração post mortem aos quadros do Ministério das Relações Exteriores. Foi então inaugurado o “Espaço Vinicius de Moraes” no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro.
“Garota de Ipanema” é a canção brasileira mais conhecida em todo o mundo, com mais de 169 gravações feitas por artistas como Frank Sinatra, Cher, Mariza, Madonna, Sepultura e vários outros artistas. Em 19 de março de 1963 deu-se a gravação para a “gravadora Verve”, no ano seguinte sai o LP: “Getz/Gilberto” com a participação de Tom Jobim no piano. Na história da música brasileira é uma das poucas músicas em versão em inglês cantada originalmente pelos seus compositores a fazer sucesso no exterior. A versão original da música, com o nome de Menina que passa, continha apenas estes versos: “Eu vi a menina/Que vinha num passo/Cheio de balanço/Caminho do mar”, na realização da versão final. Porém, nem Tom nem Vinicius gostaram da letra da canção.
                                     Vinicius de Moraes e Helô Pinheiro
Então a versão definitiva foi refeita mais tarde por Vinicius, inspirado em Helô Pinheiro, que passava frequentemente em frente ao Bar Veloso, hoje “Garota de Ipanema”, no Rio de Janeiro. Tom e Vinicius frequentavam assiduamente o bar, que dispunha de pequenas mesas na calçada. A “Garota de Ipanema”, Heloísa, morava na rua Montenegro, número 22 e somente dois anos e meio depois, já com namorado, ficou sabendo que era a inspiração da canção. Provavelmente em retribuição à homenagem, Heloísa, quando se casou, convidou Tom Jobim e sua esposa Teresa para serem padrinhos. Uma versão instrumental desta canção já foi feita para o filme “Garota de Ipanema”, de 1967 de Leon Hirszman. Garota de Ipanema é uma trilha sonora do filme homônimo do diretor Leon Hirszman, lançado em 1967. O LP conta com canções em sua maioria da dupla Tom Jobim e Vinicius de Moraes, de 1967, como “Lamento do Morro”, “Ela é Carioca”, “Garota de Ipanema” - além da participação de Chico Buarque (em “Noite dos Mascarados” e “Chorinho”). Outra versão em inglês já foi feita para esta canção e chama-se “The Girl from Ipanema” e além de Vinícius, foi composta por Norman Gimbel em 1963. Um Dueto entre cantora e apresentadora Xuxa e Daniel Jobim, neto do músico Tom Jobim, fez parte da Trilha Sonora e da Abertura da Novela brasileira da Rede Globo com autoria de Miguel Falabella, no horário das 19 horas: Aquele Beijo (2012).
Leon Hirszman ainda estudante de Engenharia iniciou suas atividades em cineclubes e ligou-se a Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Oduvaldo Viana Filho. Começou suas atividades cinematográficas junto com sua vigorosa e consistente militância política, no movimento estudantil no Rio de Janeiro, tendo sido um dos fundadores do CPC – Centro Popular de Cultura, da União Nacional dos Estudantes (UNE). Foi no CPC que ele realizou sua primeira produção, o curta “Pedreira de São Diogo”, um dos cinco episódios do filme “Cinco vezes favela”, lançado em 1962. Documentarista e autor de ficção, em sua obra figuram os documentários “Nelson Cavaquinho”, “Megalópolis”, “Ecologia” e “Sexta-feira da Paixão, Sábado de aleluia”.
Em 1971, ele realiza o longa-metragem “São Bernardo”, baseado na história homônima de Graciliano Ramos, que apesar do enorme sucesso de crítica, não conseguiu se transformar em sucesso de público. Ainda na década de 1970 filmou os importantes documentários “Cantos do trabalho no campo” em 1976, o longa-metragem “Que país é esse?” em 1977, “Rio, carnaval da vida” em 1978 e realizou o longa-metragem “ABC da greve”, sobre o movimento operário da região do ABC paulista. Em 1981, recebeu a consagração de público e crítica e o Leão de Ouro do Festival de Veneza com o filme “Eles não usam black-tie”, adaptação da peça teatral de Gianfrancesco Guarnieri, que escreveu com Leon o roteiro e os diálogos do filme.
Letra de “Garota de Ipanema” - 1962 (Composição: Vinícius de Moraes / Antônio Carlos Jobim):
“Olha que coisa mais linda/Mais cheia de graça/É ela menina/Que vem e que passa/Num doce balanço, a caminho do mar/Moça do corpo dourado/Do sol de Ipanema/O seu balançado é mais que um poema/É a coisa mais linda que eu já vi passar/Ah, porque estou tão sozinho/Ah, porque tudo é tão triste/Ah, a beleza que existe/A beleza que não é só minha/Que também passa sozinha/Ah, se ela soubesse/Que quando ela passa/O mundo sorrindo se enche de graça/E fica mais lindo/Por causa do amor”.
A cantora Amy Winehouse (cf. Braga, 2011) fez uma versão para a música, que está no seu álbum póstumo, lançado meses depois de sua morte. “Garota de Ipanema” foi a única canção de outros autores a ter sido interpretada pela banda Casseta & Planeta, cantada por Hubert imitando o jornalista Paulo Francis. Atração frequente dos primeiros espetáculos da banda foi incluída no videocassete “Casseta Popular & Planeta Diário em conserto”, mas não nos discos subsequentes. A canção inspirou outra da banda americana The B-52`s com “Girl From Ipanema Goes To Greenland” (“Garota de Ipanema Foi Para a Groelândia”), presente no disco Bouncing Off the Satellites (1986). É uma metáfora, já que a “Garota de Ipanema” representa uma garota alegre e atraente e a Groelândia, um lugar frio, representa uma personalidade fria. Resumindo, é uma garota atraente que se torna insensível. Foi “Prêmio Grammy para Gravação do Ano em 1960”. 
Helô, no qual o sobrenome Pinheiro é de casada, é descendente, por parte de mãe, da tradicional família Oliveira de Menezes, do Rio de Janeiro, que, por sua vez, descendeu dos Gonçalves de Menezes, conhecida família do norte de Portugal, também estabelecida no Brasil e Bittencourt Pinheiro sua avó Maria do Carmo. Sua mãe perdeu o Pinheiro e Helô ganhou ao casar. Helô teve quatro filhos de seu único casamento com o engenheiro Fernando Pinheiro: Kiki Pinheiro, a mais velha, e que ocupa eventualmente páginas da mídia brasileira, fazendo desfiles e fotos; Ticiane Pinheiro, modelo e atriz, casada com o empresário e publicitário Roberto Justus; Jô Pinheiro casada com Luiz Carlos Trielli e o único varão, Fernando Mendes Pinheiro Junior. Helô apresentou o programa feminino Ela, na TV Bandeirantes, na década de 1980, show da tarde no Sbt, “The girl from Ipanema” no canal 42 Miami, “Helô Pinheiro na Rede Mulher”, “Rio Mulher” na Cnt Rio.
Apresentou ainda o programa “Código de Honra” pela rede de televisão TV Justiça com uma parceria da faculdade FMU e Iasp. O programa é um talk show que discute sobre temas de direito voltado à sociedade brasileira. Dentre os trabalhos fotográficos de Helô, ao longo de sua carreira, destaca-se aquele ensaio fotográfico que, em abril de 2003, aos 58 anos de idade, fez ao lado da filha e que foi publicado pela revista Playboy. O trabalho se consagrou na revista, pois, “pela primeira vez, mãe e filha se fotografaram juntas num ensaio de capa”. Helô entrou para as estatísticas mundiais da revista, “como a mais velha das modelos reportadas”.
                           Foto: Helô e Ticiane Pinheiro em 07 de abril de 2003.
A revista Playboy do mês de abril de 2003, que traz na capa Helô Pinheiro e sua filha caçula, Ticiane, chega às bancas nesta terça-feira, dia 8. A Garota de Ipanema e a estudante de cinema foram fotografadas por J.R. Duran. A edição entrará para a história da Playboy, já que, pela primeira vez, mãe e filha estampam a capa. Em maio de 85, Maria Lúcia Dahl e a filha Joana posaram juntas, mas não foram capa. Helô Pinheiro já foi estrela da revista, em maio de 1987, em um ensaio também assinado por Duran. Como Helô e Ticiane não queriam fazer fotos externas, o cenário escolhido foi um grande estúdio de cinema em São Paulo. O filme Ligações Perigosas serviu como fonte de inspiração e o resultado contou com móveis de época, dois cavalos da raça Appaloosa e painéis gigantescos, que trazem um bosque na pintura”.
O texto que acompanha o ensaio foi feito pelo compositor Toquinho. Entre as frases mais inspiradas estão: “É lindo quando o tão implacável tempo é desafiado pela beleza de gerações”; “A Garota de Ipanema é hoje uma garota do Mundo” e “Meu Deus! Quantos universos a serem descobertos nas curvas de uma mulher!”. Há 16 anos, Tom Jobim poetizou a beleza de Helô Pinheiro. A estreante Ticiane Pinheiro disse que a experiência foi mais fácil do que ela pensava. “Quando me chamaram eu não queria de jeito nenhum, mas surgiu a ideia de fazer com a minha mãe. Aí eu comecei a gostar da coisa, porque sabia que não iria ficar vulgar. Faria o ensaio com minha irmã também, porque é o mesmo sangue. Se fosse com outra mulher, de jeito nenhum”. Helô também ficou tranquila. “A Tici sou eu ontem e eu sou ela amanhã. Houve um entrosamento legal, até porque costumamos fotografar muito juntas. Eu sou até mais introvertida do que ela, no final das contas. Mas não teve stress”.
Frequentemente, Heloísa passava em frente ao bar Veloso - que mais tarde, como vimos, mudaria para “bar Garota de Ipanema” - na esquina das ruas Montenegro e Prudente de Moraes. Jovem e linda, ela atraía os olhares das pessoas por onde passava. O que Helô, como é chamada até hoje, não imaginava é que dois desses admiradores a tornariam mundialmente famosa e lhe dariam um título importante pelo resto da vida. Tom Jobim e Vinícius de Moraes se encantaram pela jovem e, em sua homenagem, escreveram uma das letras mais famosas da música brasileira. Garota de Ipanema foi composta em 1962, época em que Helô Pinheiro tinha apenas 17 anos.
Eneida Menezes Paes Pinto Pinheiro, conhecida por Helô Pinheiro, na época com apenas 17 anos, nunca imaginou ter sua imagem consagrada pela voz de músicos tão reconhecidos. “Foi um momento muito especial quando um fotógrafo contou que viu o Tom e o Vinicius no Bar Veloso na Rua Montenegro, atual Vinicius de Moraes, comentando haver feito uma música inspirada em mim. Não acreditei”, relatou a musa. Confirmando o fato, três anos depois, a composição explodiu nas rádios e, de próprio punho, Vinicius revelou um texto poético, para a Revista Manchete o intitulando por “A verdadeira Garota de Ipanema”.  “A minha intenção é a expressão do quanto essa musa inspiradora tocou fundo em nós”, declara o músico.
 Com isso, a repercussão veio à tona. Helô já obtinha todos os holofotes voltados para a sua imagem e, inesperadamente, sua carreira iniciou-se ali. “Estou inserida numa situação privilegiada, foi um passado de muito sucesso e coisas belas na história da música brasileira”, afirmou ela. A eterna “garota de Ipanema” destacou ainda a responsabilidade em representar todas as garotas do bairro e a sensação em passar próximo ao cenário em que marcou a sua história. “Hoje eu passo em frente ao bar Veloso e recordo tudo o que aconteceu, é maravilhoso, apesar de no inicio ter ficado um pouco assustada com o assédio, era muito tímida”, confessou Helô.
Em 1987, Helô Pinheiro estreou seu primeiro ensaio fotográfico para a revista Playboy, reverenciado através de um texto escrito por Tom Jobim. “Heloisa minha brisa, minha eterna inspiração, quando vejo Helô Pinheiro corro pro banheiro vou tomar extremunção. Tomo leite com farelo pra baixar a hipertensão. Heloisa, Heloisinha, quem te chama é Tom Jobim, te espero na mesma esquina, já comprei amendoim”, declarou o músico. “Foi muito bom ter o Tom com um olhar de aprovação para a minha decisão, precisava fazer alguma coisa diferente e não me arrependo”, confessa Helô. Aos 58 anos, em abril de 2003 a musa reapareceu na revista, mas agora, ao lado da filha Ticiane Pinheiro. O trabalho repercutiu bastante na mídia, pois, pela primeira vez, mãe e filha se fotografaram juntas num ensaio de capa, além disso, Helô é a mais velha das modelos reportadas.
De forma admirável e com muita felicidade e gosto, Tom e Vinicius captaram esse momento dos anos 1960, acentuando ainda mais pelo mundo a fama da beleza e graça da mulher brasileira. Após 49 anos de composta a música, Helô Pinheiro não deixa a desejar quando o assunto é beleza. Atualmente, mãe de quatro filhos, a musa concilia a vida familiar com a vida profissional. Dona de um currículo bastante diversificado, de modelo, apresentadora à empresária. Hoje, encontra-se mais focada na sua loja “Garota de Ipanema”, que oferece vestimentas da moda praia, em São Paulo e no Rio de Janeiro.
__________________
* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Bibliografia Geral Consultada.
ALBERONI, Francesco, O Erotismo, Fantasias e Realidades do Amor e da Sedução. São Paulo: Circulo do Livro, 1986; MITCHELL, Juliet, “Mulheres: a Revolução mais Longa”. In: Revista Civilização Brasileira, nº 14, Rio de Janeiro, 1967, p. 7; BEAUVOIR, Simone de, O segundo sexo. 2ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009; BECKER, Howard S, Falando da Sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 2009; BRAGA, Ubiracy de Souza, “A Crise do Desejo: Amy Winehouse”. Disponível em: http://www.oreconcavo.com.br/2011/08/02/; BUARQUE, Chico, Leite Derramado. São Paulo: Cia das Letras, 2007; CABRAL, Muniz Sodré de Araújo, Antropologia do Espelho. Petrópolis (RJ): Vozes, 2002; CANEVACCI, Massimo (Org. e Introdução), Dialética da Família. 1ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1981; CERTEAU, Michel de, La Culture au Pluriel. Paris: Union General d`Éditions, 1974; COULON, Alain, Etnometodologia. Petrópolis (RJ): Vozes, 1995; GERBER, Raquel, O Mito da Civilização Atlântica - Glauber Rocha e o cinema Novo, cinema e sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978; Idem, Cinema Brasileiro e Processo Político e Cultural (de 1950 a 1978). Rio de Janeiro: Embrafilme, 1982; HAHNER, June E., A Mulher no Brasil. Textos coligidos e anotados por June E. Hahner. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1978; PARKER, Richard G., Corpos, Prazeres e Paixões. A Cultura Sexual no Brasil Contemporâneo. São Paulo: Best Seller, 1987; SAFFIOTI, Heleieth, “Relaciones de sexo y de classes sociales”. In: LA MUJER en America Latina. Ciudad de México: Sepsetentas, 1975, v. 2; Idem, A mulher na sociedade de classes. Petrópolis (RJ): Vozes, 1976; ZUSMAN, Waldemar, Os Filmes que vi com Freud. São Paulo: Imago, 1994, entre outros. 

sexta-feira, 2 de março de 2012

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA


XV ENCONTRO NACIONAL DE FILOSOFIA DA ANPOF
Curitiba – 22 a 26 de outubro de 2012
ANPOF DO ENSINO MÉDIO
A Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia programou para o seu próximo encontro bianual um conjunto de eventos paralelos voltados para os professores de filosofia do Ensino Médio, a ANPOF do Ensino Médio. Com isso, a ANPOF espera atender a uma demanda crescente, do poder público, dos professores de filosofia do Ensino Médio e da comunidade universitária, em torno das contribuições do trabalho acadêmico de nível de Pós-Graduação em filosofia para o ensino de filosofia no Ensino Médio. Recentemente, a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) criou diversas iniciativas de fomento à formação dos professores da Educação Básica, com a participação da comunidade acadêmica (Prodocência, PIBID, PARFOR etc.). Qual o papel da Pós-Graduação nesse cenário? Diante das diversas posições acerca do mérito, das finalidades e métodos do ensino de filosofia na Educação Básica, a ANPOF assume a responsabilidade de abrir um espaço de diálogo e troca de experiência, onde as demandas por uma formação qualificada para a Educação Básica possam ser ventiladas e atendidas, na medida do possível, do interesse da comunidade acadêmica e dos próprios professores do Ensino Médio e licenciandos em filosofia. Uma premissa fundamental dessa iniciativa é que há, evidentemente, uma via de mão dupla entre a Educação Básica e o Ensino Superior. Com a ANPOF_EM, esperamos contribuir para que essa via se torne ainda mais ampla, propiciando o fortalecimento e a integração da comunidade acadêmica em seus diversos níveis de atuação profissional, de ensino, pesquisa e extensão.
INSCRIÇÕES A PARTIR DE 16 DE MAIO
(com taxas especiais para professores do ensino médio)
PROGRAMAÇÃO DA ANPOF_EM:
*Relatos de experiências*
(ver chamada abaixo)
*Minicursos*
(inscrições a partir de 20 de agosto, disponível apenas para participantes com inscrição geral no evento)
*Sessão Plenária: Pós-Graduação e Ensino Médio*
*GT Filosofar e Ensinar a Filosofar*
RELATOS DE EXPERIÊNCIA/ANPOF_EM
Chamada para inscrições de propostas
1)As sessões de relatos de experiência da ANPOF_EM têm como objetivo divulgar e discutir experiências de ensino de filosofia realizadas em escolas de ensino médio.
2)As experiências serão selecionadas com base na sua relevância para a melhoria e ampliação do ensino de filosofia e no seu potencial de replicação em outras escolas e regiões do país.
3)Poderão se candidatar professores de filosofia do ensino médio das redes públicas e particulares de ensino, que tenham participado das experiências a serem relatadas seja como principal protagonista seja como colaborador.
4)Serão selecionadas 20 experiências
5)As sessões de apresentação ocorrerão nos dias 22, 24 e 25 de outubro, das 16h00 às 18h30.
6)O tempo para cada apresentação será de 20 minutos, seguidos de 10 minutos de discussões e debates com os ouvintes.
7)As propostas deverão ser encaminhadas em formulário eletrônico próprio, disponível em www.filosofia.ufpr.br/anpofensinomedio
8)As propostas serão avaliadas e selecionadas com base em parecer emitidos pela comissão organizadora e pelo comitê científico.
9)Os autores das propostas selecionadas deverão também realizar a sua inscrição geral no evento (em http://anpof.org.br/encontros/15/), com o pagamento da taxa de inscrição, para que possam ter confirmado a inclusão do seu relato na programação da ANPOF_EM.
Calendário:
27/02: Lançamento da chamada para inscrições de propostas
05/03 a 27/04: Período para o envio de propostas (www.filosofia.ufpr.br/anpofensinomedio)
02/05 a 28/06: Período para avaliação e seleção das propostas enviadas
16/07: Data limite para a divulgação das propostas selecionadas
15/08: Data limite para que os autores das propostas selecionadas realizem a sua inscrição geral no evento (em http://anpof.org.br/encontros/15/)
Comissão organizadora:
Edson Pegoraro (SEED-PR), Eduardo Barra (UFPR), Filipe Ceppas (UFRJ), Juliano Orlandi (editor da seção "Filosofia na Escola" do site da ANPOF), Marcelo Guimarães (Colégio Pedro II, RJ), Valeria Arias (SEED-PR)
Comitê científico:
Antonio Edmilson Paschoal (PUCPR), Celso Pinheiro (UFPR), Danilo Marcondes (PUCRJ), Delamar Dutra (UFSC), Edgar Lyra (PUCRJ), Elisete Tomazetti (UFRGS), Geraldo Balduino Horn (UFPR), Inara Zanuzzi (UFRGS), Jairo Marçal (Unibrasil), Marcelo Marques (UFMG), Marcos von Zuben (UERN), Patrícia Velasco (UFABC), Pedro Gontijo (UnB), Renato Nogueira Jr. (UFRRJ), Roberto Rondon (UFPB), Silvio Gallo (Unicamp), Telma Birchat (UFMG), Walter Kohan (UERJ). 

Robert Musil: As Qualidades de um Autor à Janela do Mundo.


            
                                                                                                 Ubiracy de Souza Braga*
                                                     Tudo o que se pensa ou é afeto ou aversão” (Robert Musil).
 Robert von Musil nasceu na Áustria em 6 de novembro de 1880. Com a anexação da Áustria pela Alemanha nazista, em 1938, Musil mudou-se para a Suíça - inicialmente Zurique, depois Genebra, cidade onde morreu em 15 de abril de 1942. Estudou engenharia e filosofia, obtendo em 1908 o doutorado. Foi um escritor austríaco, um dos mais importantes romancistas modernos. Ao lado de Franz Kafka, Marcel Proust e James Joyce forma o grupo dos grandes prosadores do século XX. Da sua obra destaca-se o monumental O Homem sem Qualidade (1998); (cf. Der Mann ohne Eigenschaftens,1952), é um “anti-romance” ou um “não romance” que é acima de tudo uma grande reflexão sobre a época de Musil. Sua estreia como romancista ocorreu em 1906 com o romance etnobiográfico: O Jovem Törless (Die Verwirrungen des Zöglings Törless) baseado na experiência do próprio autor em um colégio militar.  Esta obra constitui uma impressionante previsão, com quase trinta anos de antecedência, do sadismo nazista e de seus motivos psicológicos, segundo Fromm (1973) em The Anatomy of Human Destructiveness.
Nos anos seguintes, trabalhou como bibliotecário e Editor, depois fez parte do Exército Austríaco e lutou na Primeira grande Mundial (1914-1918). Após a guerra, Musil trabalhou de 1918 a 1922, como funcionário público, jornalista e escritor em Viena. Em 1930, lançou o primeiro volume (de uma série de três) da obra O Homem com Qualidades Definidas - os outros dois foram publicados em 1933 e 1945, respectivamente. Este trabalho, que ficou inacabado - ele morreria antes de completá-lo -, fez com que “a crítica da época saudasse Musil como um dos grandes escritores do século”. Em 1932, ele mudou-se para Berlim, onde residiu por um ano, em seguida, retornou para Viena, onde viveu até a anexação da Áustria pela Alemanha Nazista, em 1938. Depois da anexação nazista, Musil mudou-se para Suíça, para morar em Zurique. Mais tarde, mudou-se novamente, agora para Genebra, cidade onde morreu, em 1942.
Após a Guerra trabalhou como “servidor público” e jornalista em Viena fin-de-siècle que demonstra onde, quando e como se fabricou a modernidade: o fundador da psicanálise, Sigmund Freud, os pintores Gustav Klimt e Oscar Kokoschka, os teatrólogos Hugo von Hofmannsthal e Arthur Schnitzler, o arquiteto Otto Wagner e o urbanista Camillo Sitte são alguns dos grandes inovadores que desfilam nesta cidade (cf. Schorske, 1988). Em 1930, Musil lança o primeiro volume dos três que compõem O Homem Sem Qualidades (os outros foram publicados em 1933 e 1945). Da sua obra, que abarca o romance, o ensaio, o teatro e o conto, destaca-se, O Homem sem Qualidades que foi considerada uma das obras literárias mais importantes do século XX com a obtenção do Prémio Goethe em 1933. Vale lembrar last but not least que parte da sua obra foi publicada postumamente.
Depois desse “romance-mundo”, que ficou inacabado, a crítica da época passou a saudar Musil como um dos grandes escritores do século - opinião que só se fortaleceu com o passar dos anos. Contudo, pesar das referências geográficas, O Homem Sem Qualidades não pretende ser um relato histórico ou uma descrição da sociedade austríaca da época. Não se trata de um romance regionalista, mas da tentativa de resolver o problema da realidade a partir do ponto de vista da consciência moderna. Sua intenção é descrever e criticar os elementos centrais da sociedade em geral, razão pela qual a “Kakânia” e sua população servem como paradigmas do mundo moderno (cf. Rentsch, 1990: 65) e como símbolos de um problema universal. A importância de Viena consiste apenas em ser uma cidade grande, pois O homem Sem Qualidades é um romance urbano que focaliza a constituição urbana do indivíduo.
            Robert Edler von Musil (1880-1942) nasceu em Klagenfurt, na Áustria, e morreu pobre - “quase esquecido e dependendo da ajuda de amigos” - em Genebra, na Suíça, em plena II Guerra Mundial. Aos dez anos Musil entrou para a Escola Militar em Eisenstadt, destinado à carreira de oficial. Estudou durante mais de cinco anos em instituições do exército até chegar à Academia Militar de Viena, em 1897. Um ano depois, Musil decidiu largar a carreira de oficial e passou a estudar Engenharia em Brünn, obtendo o diploma da graduação em 1901. Depois de uma temporada em Stuttgart, cursou Filosofia e Psicologia experimental na Universidade de Berlim, doutorando-se em 1908 com tese sobre Ernst Mach (1838-1916), físico e filósofo austríaco. Os estudos de Mach sobre o fenômeno da descontinuidade e da dissociação, assim como suas teses a respeito do “eu condenado” (“unrettbares Ich”), seriam decisivos na formação de vários escritores vienenses, entre eles Arthur Schnitzler e o próprio Musil. No plano da crítica metafísica, a falta de qualidades, inserida na tradição da filosofia moderna, isto é, do empirismo e do neopositivismo, assim como na teoria do conhecimento de Ernst Mach, é voltada contra o essencialismo da ontologia substancialista visando sua destruição.
            De acordo com Michel Hanke, há uma relação dialógica de qualidade, pois,
Ernst Mach, físico e professor de filosofia em Viena desde 1895, encontrou o acesso ao Eu através de análises físicas. Ele dissolveu o Eu nas chamadas qualidades sensoriais e perceptivas, impossibilitando assim sua percepção e representação integral (cf. o exemplo de Mulligan, 1990: 225 - a tentativa bem-sucedida de observar a minha ira acaba no desaparecimento da mesma). Esse “monismo psicofísico” conduziu a uma dissolução física do sujeito em complexos sensoriais isolados, de modo que a última instância de valores, a identidade do Eu unitário, é desmascarado como ilusão. A famosa fórmula de Mach, “O Eu não tem salvação”, fundada nos argumentos de Brentano e do Husserl da primeira fase, de Stumpf e de Ehrenfels, foi popularizada posteriormente por Hermann Bahr. O sujeito (ou Eu), enquanto portador firme de suas qualidades essenciais, era a substância por excelência da ontologia clássica; para o romance de Musil, a ideia central é “... que a crítica do conhecimento de Mach e sua doutrina elementar, junto com a dissolução da ontologia substancialista, representam uma dissolução do conceito tradicional do Eu, cuja realidade é garantida através da sua substancialidade” (Rentsch, 1990: 53 apud Hanke, 1998).
De 1914 a 1918, Musil participou ativamente da I grande Guerra na condição de oficial de Infantaria do exército austríaco. Ao final dos combates chegou a capitão, condecorado com a principal ordem de guerra do moribundo império (Ritterkreuz des Franz-Josephs-Ordens). Só a partir de 1923, e já morando em Berlim, é que Musil passaria a viver exclusivamente de sua condição de escritor. A ascensão do nazismo, em 1933, obrigou o autor a se mudar para Viena e, mais tarde - depois de se sentir numa ratoeira, conforme ele mesmo chegou a escrever em seu diário -, para Genebra, aonde veio a falecer em 15 de abril de 1942. A publicação da primeira obra de Musil - O jovem Törless (Die Verwirrungen des Zöglings Törless, 1906) - só foi levada a cabo através do incentivo do crítico berlinense Alfred Kerr. O sucesso posterior, e também a aprovação da crítica, foi imediato. No romance, Musil detém-se - com admirável agudeza psicológica - na consciência de um estudante de internato, às voltas com situações que antecipam - de maneira genial e visionária - o sadismo e a opressão nazistas.
O sadismo surge quando a afeição é substituída pela crueldade, neurose encarada como luta entre a auto preservação e a libido, onde o ego venceu, dando vazão a voz da libido (sexualidade). Para Wilhelm Reich, o orgasmo é, primeiramente, a expressão de um abandono de si, sem inibição, em direção ao parceiro. A libido do corpo inteiro flui através dos genitais. O orgasmo pode não ser considerado completamente satisfatório se for sentido apenas nos genitais; movimentos convulsivos de toda a musculatura e uma leve perda de consciência são atributos normais e indicação de que o orgasmo como um todo teve participação. Além disso, o incesto precisa ser explícito? Não poderia haver o êxtase de um elo místico entre eles, mesmo de forma toda e plenamente espiritual? “mas não, era espiritual e físico; o fogo que irrompera como centelha inicial continuava ardendo debaixo das cinzas. Talvez se devesse dizer: a alma de Ágata procurava outra maneira de arder livremente”.
                               
No início do século passado, na Áustria, o jovem estudante Törless, tímido e inteligente observava o comportamento sádico de seus amigos da escola, e não toma nenhuma providência, quando estes escolhem como vítima uma colega da sala de aula, até que a tortura vai longe demais. Adaptação do aclamado livro, o filme Der Young Törless (ALE/FRA, 1996, 87 min) de Robert Musil, esta obra prima, deu internacionalidade ao movimento do Cinema Novo Alemão, e ganhou em 1996 no Festival de Cannes, o Prêmio da Crítica Internacional para o já bastante premiado diretor, Volker Schlondorff. Estudo intrigante da natureza humana na sociedade moderna. O filme baseado no livro, realizado sessenta anos depois da publicação da obra, representou um grande êxito na Alemanha envolvida com a expurgação de um passado tenebroso.
O chamado Novo Cinema Alemão, em alemão: Neuer Deutscher Film ou Junger Deutscher Film é o nome dado à produção cinematográfica alemã das décadas de 1960 e 1970, influenciadas pela Nouvelle Vague francesa e pelos movimentos de protesto de maio 1968. Um filme de Bernardo Bertolucci, Os Sonhadores (Dreamers, The, 2003), narra a história de três jovens que, durante o Maio de 1968, veem a revolução acontecer “pela janela do quarto”. É um colírio para os olhos, um filme que pega um conflitante cenário político da década de 1960 e ensaia nela uma ardente história de amor vivida por esses três amigos. No caso do Neuer Deutscher Film seus realizadores mais influentes foram Alexander Kluge, Edgar Reitz, Wim Wenders, Volker Schlöndorff, Werner Herzog (não se considerava um membro, mas era um importante simpatizante do movimento), Hans-Jürgen Syberberg, Werner Schroeter e Rainer Werner Fassbinder. Esses cineastas colocaram a crítica social e política no centro do seu trabalho - em oposição ao cinema de “puro entretenimento”. As produções eram geralmente implementadas independentemente dos grandes estúdios de cinema.
                                       
            MUSIL, Robert, O Homem Sem Qualidades.  São Paulo: Nova Fronteira, 1989.
As reuniões, de 1911 - duas novelas - e Três mulheres, de 1924 - três contos esticados –, foram às outras duas obras ficcionais publicadas por Musil antes de O homem sem qualidades. O drama Os entusiastas (Die Schwärmer, 1921) e a comédia Vicente ou A amiga dos homens importantes, de 1923, provaram que a pena de Musil também era afiada no teatro. O espólio literário do autor ainda revelaria várias obras de qualidade, entre elas o conto O melro (Die Amsel). Do ponto de vista analítico O homem sem qualidades representa a síntese final, tanto da obra quanto da vida de Robert Musil. Todas as obras anteriores do autor são uma espécie de preparação ao Homem sem qualidades, toda sua vida parece ter sido direcionada para a escritura final do romance. Contando apenas o tempo ativo, Musil trabalhou em sua obra-prima durante cerca de 15 anos, de 1927 até o dia da morte. A primeira parte foi publicada em 1930. Logo depois de ter sido lançada a segunda parte - em 1933 –, a obra foi proibida tanto na Alemanha quanto na Áustria. A terceira parte, ainda organizada pelo autor, seria publicada em 1943, na Suíça. A edição de 1952 traria o acréscimo de um quarto volume, organizado por Adolf Frisé e baseado nas notas deixadas pelo autor.
Em verdade, “O homem sem qualidades” é um fragmento gigantesco, de modo que se pode falar de uma falta de qualidades formais. O primeiro volume do romance saiu em 1931; tudo indica que Musil, depois de sua volta de Berlim, onde havia conhecido seu primeiro editor Ernst Rowohlt, trabalhou, desde 1921, como escritor livre na sua obra-prima, exercendo, concomitantemente, as atividades de crítico de teatro e ensaísta. Dificuldades financeiras motivaram a fundação de uma Sociedade Musil, possibilitando-lhe uma estadia em Berlim (1931 a 1933) e a conclusão da primeira parte do segundo volume. A dissolução da Sociedade-Musil pelos nazistas fez com que o autor voltasse a Viena e que se fundasse a Sociedade Musil Vienense. Afirma-se que a continuação do volume II, enviada à editora em 1938, tenha sido confiscada pelo governo alemão; de qualquer maneira, ela acabou na lista dos “escritos nocivos e indesejáveis”. O início dessa parte confiscada tinha como subtítulo “Rumo ao Império Milenar. Os criminosos”, sem que houvesse um segundo sentido político. Musil, nascido em 1880, faleceu no dia 15 de abril de 1942 no exílio suíço durante o trabalho no seu opus magnum.
Este romance-ensaio mostra a decadência dos valores vigentes até o início do século XX. Em sua narrativa a ação de O homem sem qualidades transcorre na Áustria imperial, dissimulada sob o nome de Kakânia. O romance constitui um vigoroso painel da existência burguesa no início do século XX e antecipa de certa forma, as crises que a Europa viveria apenas na segunda metade daquele mesmo século. A obra é - em suma - “o retrato ficcional apurado de um mundo em decadência”. Elaborado com fortes doses de sátira e humor, O homem sem qualidades é uma bola de neve de ações paralelas, que rola pela montanha do século abaixo, abarcando tempo e espaço, para ao fim engendrar um romance inteiriço, ainda que multiabrangente, pluritemático e panorâmico. Ulrich – “o homem sem qualidades” - faz três grandes tentativas de se tornar um homem importante: a) na condição de oficial, b) no papel de engenheiro (vide a carreira do próprio Musil) e, finalmente, c) como matemático, exatamente as três profissões dominantes – e mais características - do século XX. Afirma Musil:
se quisermos passar sem problemas por portas abertas, é bom não esquecer que elas têm ombreiras sólidas; este princípio, segundo o qual o velho professor sempre tinha vivido, mais não é do que uma exigência do sentido de realidade. Ora, se existe um sentido de realidade – e ninguém duvidará de que ele tem direitos à existência -, então também tem de haver qualquer coisa a que possamos chamar o sentido de possibilidade. Aquele que o possui, não diz, por exemplo: isto ou aquilo aconteceu, vai acontecer, tem de acontecer aqui, mas inventará; isto ou aquilo poderia, deveria ter acontecido aqui. E quando lhe dizem que uma coisa é como é, ele pensa: provavelmente, também poderia ser diferente. Assim, poderia definir-se o sentido de possibilidade como aquela capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser e de não dar mais importância àquilo que é do que àquilo que não é. Como se vê, as consequências desta disposição criadora podem ser notáveis; infelizmente, não é raro que façam aparecer como falso aquilo que as pessoas admiram e como lícito aquilo que elas proíbem, ou então as duas coisas como sendo indiferentes. Esses homens do possível vivem, como se costuma dizer, numa trama mais subtil, numa teia de névoa, fantasia, sonhos e conjuntivos; se uma criança mostra tendências destas, acaba-se firmemente com elas, e diz-se-lhe que tais pessoas são visionários, sonhadores, fracos, gente que tudo julga saber melhor e em tudo põe defeito. Quando se quer elogiar estes loucos, chama-se-lhes também idealistas, mas é claro que com isso só se alude à sua natureza, débil, incapaz de compreender a realidade, ou que a evita por melancolia, uma natureza na qual a falta do sentido de realidade é um verdadeiro defeito”.
Os três ofícios são essencialmente masculinos e revelam o semblante de uma época regida pelo militarismo, pela técnica e pelo cálculo que, juntos, acabaram desmascarando o imenso potencial autodestrutivo da humanidade. O relato acerca da busca “desencantada” de Ulrich lembra a velha busca – ainda sagrada – do Santo Graal. A compreensão da realidade característica da obra e do pensamento de Musil é rematadamente satírica. A índole “ensaística” do autor arranca máscaras e sua ficção trabalha na confluência dos gêneros. Musil é um escritor “contemplativo”, de “postura clássica”, situado à janela do mundo e atento a seus movimentos. Tanto que, em várias situações de suas obras, seus personagens aparecem à janela. Ao utilizar vários elementos do ensaio, e inclusive ensaios inteiros no corpo da ficção, além de fazer uso livre do discurso pretensamente científico - ainda carregado de poesia – na compleição do romance, Musil dá vida à hibridez de sua narrativa. A frialdade da linguagem, a formalidade da postura do narrador são apenas superficiais. Se à primeira vista o olhar do narrador é marcado pelo intelectualismo – frio e impessoal –, logo se descobre que isso é apenas um meio apolíneo contra o perigo dionisíaco do mundo (Nietzshe), e que a indiferença gelada da superfície apenas mascara a paixão ardente do interior (Weber).
No livro-romance seu personagem Ulrich se sente um “homem sem qualidades” porque o mundo contemporâneo inverteu os princípios do humanismo e colocou a matéria no centro da realidade moderna. Na verdade, Ulrich via em si todas as qualidades e capacidades privilegiadas por sua época - exceto a de ganhar dinheiro, da qual também não necessitava -, mas foi obrigado a constatar que a possibilidade de aplicá-las já havia lhe escapado às mãos. “Surgiu um mundo de qualidades sem homem, de vivências sem aquele que as vive” e, assim, o personagem se vê confrontado com as contradições centrais do universo contemporâneo: a luta entre causalidade e analogia, entre crença na ciência e pessimismo cultural, entre lógica e sentimento, em suma. No fim, o que resta é a impossibilidade de perpetuar a reconciliação entre eu e mundo, de consumar a “entrada no paraíso”, a ataraxia de Schopenhauer, a placidez ausente de vontade e busca da vita contemplativa.
Todos os personagens de O homem sem qualidades apenas são importantes na medida em que se relacionam com Ulrich, na medida em que são, inclusive, superfícies nas quais ele mesmo se espelha. Todos eles não deixam de configurar, de certo modo, possibilidades e aptidões do próprio Ulrich. Mesmo o assassino de prostitutas Moosbrugger, o símbolo central do descalabro em que se encontra o mundo, é um espelho no qual Ulrich se vê refletido, já que os delírios do homicida não deixam de ser variações extremas das experiências de Ulrich em relação àquela que chama de “outra condição” (anderer Zustand), de sua busca incansável da liberdade do disparate e da vivência original, paradisíaca. Na segunda parte do romance, aliás, Ulrich passa a vivenciar cada vez mais situações de enlevo quase sobrenatural, em que já não logra mais distinguir os limites espaciais e temporais do mundo que o envolve. Mais tarde Ulrich inclusive tenta a “outra condição” junto com Agathe, sua irmã, a “duplicação assombreada de si mesmo na natureza oposta”. O amor mítico-incestuoso entre os dois constitui uma das mais belas e dolorosas histórias de amor da literatura universal.
Adotando uma atitude fundamentalmente irônica diante da sociedade, e decidida a lutar contra a estultice do século - contra “a imensa raça das cabeças medíocres e estúpidas” -, Musil muitas vezes foi compreendido como utopista, ou até místico, por alguns críticos, decididos a “dinamitar” o vigor de sua obra. O autor que foi tão corrosivo ao representar o mundo em sua realidade distorcida e deformada na figura mítica de uma Kakânia caquética, é transformado assim num sujeito extravagante e pouco afeito à realidade. Um leão sem garras nem dentes! Já em 1972, Helmut Arntzen - crítico da obra de Musil - dizia que “os críticos pareciam fazer gosto em apresentar o autor na condição de animal exótico, místico e de movimentos graciosos”. Dessa forma, o escritor combativo e heroico – conforme Musil se compreendia – era transfigurado num metafísico dócil, no homme de lettres que ele sempre renegou, num autor distanciado da realidade, provido de alguns requintes matemáticos na linguagem e de outros tantos talentos psicológicos na análise da alma humana.
A postura “contemplativa” de Musil foi entendida como passiva, a “utopia do ensaísmo” pregada por Ulrich - seu personagem - como uma visão utópica do mundo. Na verdade, Musil fez apenas lutar pela recuperação da atividade de mensurar melhor, quantitativa e qualitativamente, os sentimentos e o “volume espiritual” das relações humanas; sem a ingenuidade do romantismo, mas sem a secura do realismo bruto. De quebra, deu nova fisionomia ao sujeito, nova potência ao “eu”, tornando-o estética e radicalmente consciente, ainda que o fizesse perambular no âmbito daquilo que outro crítico - Wolfgang Lange - chamou de “loucura calculada” ou “suspensão calculada da razão”. A intuição poética de Musil, enriquecida por seu aguçado espírito científico, proporcionou ao autor a capacidade de traçar um vasto panorama ficcional de sua terra e da Europa do século XX. Postado “à janela do mundo”, Musil examina, para lembramos de Heidegger (cf. Braga, 2012), em última instância, o valor da inteligência objetiva do homem diante das casualidades mundanas.
Nunca é demais repetir que o termo alemão be-deuten, na reflexão de Martin Heidegger em Ser e tempo (Sein und Zeit, Halle, 1927; Max Niemeyer Verlag, Tubingen, 1986), insinua que se lhe está atribuindo uma acentuação forte a partir do étimo principal – deuten = “mostrar, apontar, interpretar”. Na analítica da mundanidade, todo ato e exercício de interpretação, indicação e demonstração se exercem a partir de um mundo já estruturado e estabelecido. Be-deuten = significar que remete então para o “movimento e processo de estruturação do mundo”. A tradução por significar e significância (na derivação de Bedeut-samkeit) visa a que a leitura remonte a esse nível ontológico de constituição da mundanidade.
Ora, entendemos que à fala pertence aquilo sobre o que se fala. A fala dá indicações sobre algo e isso numa determinada perspectiva. A fala retira o que ela diz como essa fala daquilo sobre que fala como tal. Na fala, enquanto processo social de comunicação, isso é o que se torna acessível à co-presença dos outros, na maior parte das vezes, através da verbalização da língua.  O que no apelo da consciência constitui o referido da fala, ou seja, o interpelado? Manifestamente a própria presença. Essa resposta é tão indiscutível quanto indeterminada. Mesmo que o apelo tivesse uma meta tão vaga, ele ainda seria para a presença um motivo de prestar atenção a si mesma. Pertence à presença, no entanto, de modo essencial, que, com a abertura de seu mundo, ela está aberta para si mesma, de tal modo que ela sempre já se compreende. O apelo alcança a presença nesse movimento de sempre já se ter compreendido na cotidianidade mediana das ocupações. O impessoalmente si mesmo do ser-com com os outros é também alcançado pelo apelo.
 A interpretação existencial da consciência deve expor um testemunho de seu poder-ser mais próprio que está sendo na própria presença. O testemunho da consciência não é um anúncio indiferente, mas uma “apelação apeladora” do ser e estar em dívida. O que se testemunha é, pois “apreendido” no ouvir que compreende o apelo sem deturpações, no sentido por ele mesmo intencionado. Apenas a compreensão do interpelar, enquanto modo de ser da presença propicia o teor fenomenal do que é testemunhado no apelo da consciência. Caracterizamos a compreensão própria do apelo como querer-ter-consciência. Esse deixar o si-mesmo mais próprio agir em si por si mesmo, em seu ser e estar em dívida, representa do ponto de vista fenomenal, “o poder-ser próprio, testemunhado na presença”. A sua estrutura existencial deve ser agora liberada numa exposição. Somente assim penetraremos na constituição fundamental da propriedade da existência que se abre na própria presença. Enfim, enquanto compreender-se no poder-ser mais próprio, “o querer-ter-consciência é um modo de abertura da presença”. Além do compreender, esta se constitui de disposição e fala. O compreender existenciário significa: projetar-se para a possibilidade fática cada vez mais própria do poder-ser-no-mundo. Poder-ser, porém, só pode ser compreendido em existindo nessa possibilidade. 
Enfim, o documentário: Janela da Alma representa a estreia na direção de Walter Carvalho. Etnograficamente foram realizadas 50 entrevistas, das quais 19 foram selecionadas para serem utilizadas no filme. As entrevistas foram realizadas em análise comparada em duas etapas: em novembro de 1999, no Brasil e parte da Europa, e em abril de 2000, no Brasil e em parte dos Estados Unidos. Dezenove pessoas com diferentes graus de deficiência visual, da miopia discreta à cegueira total, falam “como se veem, como veem os outros e como percebem o mundo”. O escritor e prêmio Nobel José Saramago, o músico Hermeto Paschoal, o cineasta Wim Wenders, o fotógrafo cego franco-esloveno Evgen Bavcar, o neurologista Oliver Sacks, a atriz Marieta Severo, o vereador cego Arnaldo Godoy, entre outros, fazem revelações pessoais e inesperadas sobre vários aspectos relativos à visão: o funcionamento fisiológico do olho, o uso de óculos e suas implicações sobre a personalidade, o significado de ver ou não ver em um mundo saturado de imagens e também a importância das emoções como elemento transformador da realidade ­ se é que ela é a mesma para todos.
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* Sociólogo (UFF), Cientista Político (UFRJ), Doutor em Ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Bibliografia geral consultada:
Vídeos: Robert - Musil - Museum Klagenfurt; Fred Ulfers. The Utopia and Essaysm of Robert Musil; Robert Musil - Kinder und tote haben keine Seele; Robert Musil`s Facebook by Augusto Mariane; Robert Musil - Das Fliegenpapier; MUSIL, Robert, Der Mann ohne Eigenschaften. (Org. Adolf Frisé). Hamburg, 1952; MUSIL, Robert, O Homem Sem Qualidades.  São Paulo: Nova Fronteira, 1989; HAKE, Michael, “A qualidade de O homem sem qualidades de Robert Musil”. Texto apresentado para o seminário “A comunicação e seus intercessores” (9-11/12/1998) da Linha de Pesquisa “Comunicação e Linguagem” do Curso de Pós-Graduação em Comunicação Social, FAFICH-UFMG, 11 de dezembro de 1998. Tradução: Georg Otte; SCHORSKE, Carl E., Viena fin-de-siècle - Política e cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 1988; HEGEL, G. W. F., Fenomenologia dello Spirito. Florença: La Nuova Itália, 1973, 2 volumes; Idem, “A Fenomenologia do Espírito” (Excerto). In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980; Idem, System der Wissenschaft/Phänomenologie des Geistes. Frankfurt am Main; Suhrkamp, 1986; KAFKA, Franz, Carta ao Pai. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1997; Idem, O processo. São Paulo: Editora 34, 2002; LEMAIRE, Gérard-Georges, “Iniciação à dor do amor”. In: Kafka. Porto Alegre: L & PM, 2006, pp. 88 e ss; BLOOM, Harold, Gênio - Os 100 autores mais criativos da história da literatura. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003; LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J. B., Vocabulário da Psicanálise. Lisboa: Martins Fontes, 1970; BRAGA, Ubiracy de Souza, “Notas sobre o Bicentenário d`A Fenomenologia do Espírito, de Hegel”. In: Revista eletrônica Achegas.net. Rio de Janeiro, nº 33, jan. - fev. 2007; Idem, “Os Intelectuais e a Razão na História”. Disponível em: http://www.oreconcavo.com.br/2010/06/26/; Idem, “Martin Heidegger e o Caráter de Apelo da Consciência: Be-deuten”. In: http://www.oreconcavo.com.br/2012/01/16/; Idem, “O Tapete Vermelho do Óscar 2012 - Viva a Nostalgia”. In: http://estudosviquianos.blogspot.com/2012/02; WEBER, Max, Ensaios de Sociologia (Org. por Hans Gerth & Charles Wrigth Mills). Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982; Idem, Economia y Sociedad. Esbozo de sociología comprensiva. México: Fondo de Cultura Económica, 1992, entre outros.